Red flags de projeto: quando recusar um cliente
Nos primeiros dois anos trabalhando solo, aceitei tudo que chegava. Dinheiro era dinheiro. Depois de 5 projetos ruins, aprendi que o contrário é verdadeiro: cliente errado custa mais caro que recusar.
Um projeto ruim não é só sobre o dinheiro. É tempo gasto que podia estar sendo investido em clientes bons. É stress. É noites mal dormidas debugando código que o cliente quer mudar três vezes. É relacionamento afetado porque alguém pede “um ajustezinho rápido” que vira semana de trabalho.
Sinais de alerta
Orçamento completamente irreal. “Preciso de um app tipo Instagram mas com R$ 2 mil.” Deixa de lado o preço. O problema é o cliente que acha que app como Instagram custa pouco. Essa pessoa não vai entender por que leva tempo para fazer um filtro de foto. Vai achar que você está cobrando demais.
“Faz rápido que depois a gente vê o resto.” Essa frase termina em 10 mudanças de escopo no meio do projeto. Você começa com um site de 5 páginas, termina com 40. O cliente nunca decidiu que queria mais porque nunca planejou. No final você acaba renegociando preço pra baixo ou trabalhando de graça.
Escopo infinito. Cliente que não consegue descrever o que quer. Pede pro você “criar algo bonito” sem nenhum briefing. Depois que você entrega, diz “não, era assim” apontando pro site do concorrente. Sem especificação clara você está fadado ao fracasso.
Cliente que desvaloriza seu trabalho. “Meu sobrinho faz design grátis.” “Pago só quando estiver 100% perfeito.” “Você não gasta tempo mesmo, só copia e cola código.” Pessoa que não respeita o trabalho técnico não vai respeitar seu tempo.
Relacionamento offline ruim. Se o cliente é educado no email mas passa raiva na ligação, ou se começa a pressionar logo na primeira semana, problema é dele, não será resolvido com seu trabalho. Gente mal educada continua mal educada.
Histórias reais
Aceitei um projeto de sistema de agendamento pra clínica. Orçamento era baixo mas a clinica era de uma amiga. Comecei em setembro. Em janeiro ainda não tinha acabado porque ela queria mudar cores, adicionar relatórios, integrar com software que não era público. Paguei R$ 2 mil por 4 meses de trabalho esporádico. Nunca mais aceitei projeto de amigo.
Outro cliente chegou dizendo “preciso de um site e-commerce.” Começamos com 10 produtos. Terminou com 300 porque ele tinha medo de deixar algo de fora. Não sabia se queria vender internacionalmente. Não sabia quanto queria gastar em publicidade. Tomava decisão baseado em “o que o meu concorrente tem”. Projeto levou 5 meses quando budgetamos 1 mês.
Tinha um cliente que me chamava de sábado à noite com “ajustes urgentes” que não eram urgentes. Queria código mais rápido porque estava com pressa. Quando eu explicava que qualidade leva tempo, dizia que eu era lento. Terminei o projeto, recebi o dinheiro, bloqueei ele de tudo.
Como recusar sem queimar ponte
Você pode recusar sem ser grosseiro.
“Seus objetivos são super válidos, mas isso não é minha área de expertise. Deixa eu indicar alguém que é melhor pra esse tipo de projeto.” Pronto. Você parece gente boa.
Se for orçamento baixo, responda com honestidade. “Com o orçamento X, consigo fazer Y. Se você precisa de Z, a gente conversa sobre preço.” Se ele disser que precisa de Z mas não quer pagar mais, você tem sua resposta.
Se o escopo é indefinido, coloque limite. “Vou fazer uma discovery de uma semana pra a gente alinhar exatamente o que você quer. Depois dou orçamento preciso.” Se ele recusar discovery, é sinal de que não quer gastar nem com planejamento. Não vai gastar com execução também.
Às vezes a resposta é simplesmente “estou lotado de clientes agora, não tenho disponibilidade. Mas deixa contato e quando ficar livre eu chamo.”
A verdade difícil
Dinheiro rápido pago por cliente ruins sai mais caro que dinheiro devagar pago por cliente bom.
Você sacrifica tempo em projeto errado. Tempo que podia estar mantendo cliente bom, aprendendo tecnologia nova, ou descansando. Esse cliente ruim não vira referência. Não indica você. Provavelmente fala mal.
Depois de recusar 10 projetos ruins, você fica mais seletivo. Projeto bom demora menos pra fazer porque cliente coopera. Cliente sabe o que quer. Aprova rápido. Paga no dia certo.
Trabalhei 8 anos pra aprender isso. Não precisa você cometer os mesmos erros.
- Defina seu orçamento mínimo por projeto
- Liste seus sinais de alerta pessoais (3-5)
- Pratique a frase “não consigo fazer esse projeto agora”
- Crie um briefing de discovery pra receber de novo cliente
- Recuse o próximo cliente que chegar com orçamento irreal
- Nenhum projeto vale stress que afeta sua vida pessoal
- Cliente bom custa menos caro que cliente ruim
Recusar é parte do profissionalismo.
Testando sinais de alerta
Tem cliente que chega desconfortável. Faz perguntas agressivas. “Quanto custa?” “Quando termina?” “Tá caro né?”
Pessoa assim vai ser cliente difícil. Porque começa reclamando do preço antes de entender valor.
Resposta: “Posso te mostrar alguns cases? Vê se o valor faz sentido pra você.” Se mesmo depois de ver value proposition reclama, é sinal.
Outro sinal é cliente que demora pra responder. Pede informação, você responde em 2 horas, demora 5 dias pra responder volta. Aí no projeto vai ficar pedindo feature urgente que é especificação que mandou mal.
Desalinhamento de comunicação já é red flag.
Recuperando projetos problemáticos
Às vezes você pega o projeto e aí começa a dar ruim. O que fazer?
Primeira coisa: conversa clara. “Vejo que projeto tá difícil. Vamo realinhar? O que tá errado?” Às vezes cliente não percebeu e consegue corrigir.
Segunda: reformula contrato. “Vamo separar o que já foi feito (pago), do que é novo (rediscutir). Assim a gente sai do bolo.”
Terceira: se cliente não coopera, é hora de pensar em sair. Custa dinheiro agora, economiza stress depois.
Nunca resgatei projeto que era realmente ruim desde o começo. Achava que conseguia. Não consegui. Aprendi que intervir cedo é mais efetivo.
Como seus melhores clientes entram
Cliente bom chega via indicação. “Fulano recomendou você.” Cliente já tem expectativa ajustada porque fulano falou bem.
Cliente bom já fez pesquisa. “Vi seu portfólio, gostei do case X, como você cobra?”
Cliente bom tem orçamento pré-definido. “Tenho R$ 5 mil, o que eu consigo?”
Cliente bom aceita contrato. “Claro, faz sentido.”
Aquele cliente que chega de graça no LinkedIn tipo “opa, faz um site pra mim?” geralmente vira ruim.
Aproveita que está indo bem e coloca presença online boa. Deixa clientes achar você. Não fica aceitando qualquer proposta que chega.
Verdade estatística
8 em 10 devs que perdem dinheiro com cliente, a culpa era decisão deles de aceitar.
2 em 10 tiveram azar (cliente realmente mudou de situação ou foi desonesto).
Você controla 80% do resultado selecionando bem cliente no começo.
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