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Negócios

MEI vs Simples Nacional pra dev freelancer em 2026

Por Flávio Emanuel · · 9 min de leitura

Em 2024 eu faturei R$ 78 mil como MEI. No final de novembro, peguei um projeto de R$ 18 mil que ia me jogar pra cima do teto. Aquela ligação com o contador foi o início da minha transição pro Simples Nacional. Erros, multas evitadas no susto, e finalmente um setup que faz sentido pra dev solo brasileiro.

Esse post é o que eu queria ter lido em 2023, antes de me dar de cara com a realidade.

O teto do MEI e por que ele importa

MEI (Microempreendedor Individual) é o regime mais simples do Brasil. Você paga uma DAS fixa por mês (em 2026, em torno de R$ 80 pra prestadores de serviço), emite notas, e o teto de faturamento é R$ 81 mil por ano. Acima disso, você vira ME (Microempresa) automaticamente e cai no Simples Nacional.

Pra dev que cobra R$ 5 a 8 mil por projeto e fecha 1-2 por mês, o MEI dura uns 18-24 meses. Depois disso, você precisa migrar. Não é opcional.

A pegadinha: ultrapassar o teto em até 20% (até R$ 97.200) deixa você fazer a transição até o ano seguinte sem multa pesada. Ultrapassar mais que isso retroage e cobra como se você nunca tivesse sido MEI. Vi um colega pagar quase R$ 4 mil de retroativos por ter ignorado isso.

Quando ainda vale ficar no MEI

Quem fatura abaixo de R$ 70 mil/ano e atende cliente PJ pequeno não tem motivo pra sair. A DAS é fixa, o INSS já tá incluso (5% do salário mínimo), e a contabilidade você mesmo faz. Custo total: R$ 80 por mês.

Cliente CLT pessoa física? MEI cobre tranquilo. Cliente PJ médio (faturamento até R$ 4,8 milhões)? Também cobre, desde que ele aceite NF de MEI (alguns não aceitam por motivo de retenção, mas a maioria aceita).

Onde MEI quebra:

Cliente que exige NF com retenção de IRRF, CSLL, PIS, COFINS. MEI não emite nota com essas retenções porque não recolhe esses tributos. Cliente médio-grande às vezes precisa por exigência interna.

Cliente fora do Brasil pagando em USD. MEI pode receber, mas o operacional fica chato. Wise/Husky resolve, mas algumas plataformas (Toptal, Arc) preferem PJ regular.

Simples Nacional pra dev solo

Quando você sai do MEI, cai no Simples Nacional como ME. Faturamento até R$ 4,8 milhões/ano (você não vai chegar nem perto disso como solo, mas é o teto formal).

Pra desenvolvimento de software, você fica no Anexo III (em alguns casos Anexo V, dependendo do fator R). O que muda na vida real: a alíquota deixa de ser fixa e passa a depender do faturamento dos últimos 12 meses.

Faixa inicial do Anexo III: 6% sobre o faturamento. Conforme você fatura mais, sobe gradualmente. Pra um dev faturando R$ 150 mil/ano, fica em torno de 8-10% efetivo.

Faturamento anualRegimeCarga tributária aprox.
Até R$ 81kMEIR$ 80/mês fixo (~1.2% efetivo)
R$ 100kSimples ME (Anexo III)~6% efetivo
R$ 150kSimples ME (Anexo III)~8% efetivo
R$ 250kSimples ME (Anexo III)~10% efetivo

Fator R: o detalhe que muda tudo

Aqui mora o pulo do gato pra dev solo. O Fator R é a relação entre folha de pagamento (incluindo pró-labore) e faturamento dos últimos 12 meses. Se a folha é menor que 28% do faturamento, você cai no Anexo V (alíquotas mais altas, começando em 15,5%). Se é maior ou igual a 28%, fica no Anexo III (alíquotas menores).

Pra dev solo isso significa: você precisa se pagar pró-labore acima de um certo valor pra manter o Anexo III. Senão, paga quase o dobro de imposto.

Exemplo numérico simples: faturei R$ 150k em 12 meses. Pra ficar no Anexo III, preciso ter folha de pagamento de pelo menos R$ 42k (28% de 150k). Isso dá R$ 3.500/mês de pró-labore. Encima disso ainda paga INSS 11% (R$ 385/mês) e IRRF na fonte. Mas mesmo assim, no consolidado, sai mais barato que cair no Anexo V.

Quanto realmente sobra

Fiz a planilha que eu queria ter visto em 2023. Considerando dev solo faturando R$ 150 mil/ano, com despesas operacionais (contador, ferramentas, hospedagem) em torno de R$ 600/mês:

Cenário MEI (até R$ 81k):

  • Faturamento: R$ 81.000
  • DAS anual: R$ 960
  • Despesas: R$ 7.200
  • Líquido aproximado: R$ 72.840 (90% do bruto)

Cenário Simples ME Anexo III (R$ 150k):

  • Faturamento: R$ 150.000
  • Imposto efetivo (~8%): R$ 12.000
  • Pró-labore + INSS: R$ 4.620 anual em INSS
  • Despesas + contador: R$ 12.000
  • Líquido aproximado: R$ 121.380 (81% do bruto)

A queda de 90% pra 81% parece grande. Mas em valor absoluto você levou R$ 48 mil a mais pra casa. O que pesa é a percepção: “tô pagando muito imposto agora”. A realidade é que tá pagando proporcional, e o líquido cresceu junto com o faturamento.

O que eu mudei na prática

Quando fiz a transição em fevereiro de 2025, três coisas mudaram no dia a dia:

Contratei contador. R$ 280/mês com a Contabilizei. Vale cada centavo porque eu não vou aprender Sped Fiscal, DEFIS, ECD pra economizar R$ 280. Meu tempo vale mais.

Separei conta PJ. PicPay PJ ou Inter Empresas resolvem grátis. Tudo que entra é via PJ, todo gasto é via PJ. Cartão pessoal pra coisa pessoal, cartão PJ pra ferramentas e despesas operacionais.

Comecei a emitir NF com retenção quando o cliente pede. Cliente que paga R$ 25 mil já costuma exigir isso. Como ME, eu emito direito.

Os erros que cometi

Esperei até quase ultrapassar o teto pra começar a transição. Resultado: corri pra abrir a empresa em 30 dias, paguei R$ 1.200 em taxas de abertura emergencial e perdi 1 semana de trabalho focado. Hoje eu começaria a transição em outubro do ano em que fatures mais de R$ 60k.

Misturei conta pessoa física com PJ no primeiro mês. Quase não consegui fechar o livro caixa. Contador me disse pra zerar e começar limpo. Ouvi. Hoje não erro mais.

Não me paguei pró-labore nos primeiros 3 meses. Achei que ia “economizar imposto”. O contador me explicou Fator R. Quase caí no Anexo V por isso. Ajustei imediato.

Como decidir agora

Se você fatura abaixo de R$ 60k/ano, MEI tá ótimo. Foca em ganhar mais cliente.

Se fatura entre R$ 60k e R$ 80k/ano, comece a se preparar pra transição. Abra conta PJ, contrate contador a partir do mês que faturar R$ 70k. Quando você cruzar o teto, vai entrar pro Simples Nacional sem stress.

Se já está acima de R$ 80k/ano, faça a transição agora. Cada mês que demora aumenta risco de retroativo.

Checklist de transição MEI → ME

  • Acompanhar faturamento mensal acumulado dos últimos 12 meses
  • Contratar contador especializado em Simples Nacional (Contabilizei, Acessórias, contador local)
  • Abrir conta PJ separada (PicPay PJ, Inter Empresas, NuPJ)
  • Definir CNAE correto (6201-5/01 desenvolvimento de software por encomenda)
  • Solicitar baixa do MEI no Portal do Empreendedor
  • Abrir nova empresa como ME no Junta Comercial estadual
  • Configurar emissão de NF como ME (geralmente via Bling, Conta Azul ou direto na prefeitura)
  • Calcular Fator R mensal pra manter Anexo III
  • Fazer pró-labore mensal documentado
  • Guardar todas as notas fiscais recebidas pra dedução

A maior parte do trabalho é nos primeiros 60 dias. Depois, o contador resolve quase tudo. Você só assina e segue tocando projeto.

Leia também: Quanto custa um sistema web sob medida | Como precificar projetos sem chutar | Contrato pra dev freelancer | Case Family Pilates

Conclusão prática

A transição MEI → ME assusta porque parece complicada, mas o impacto real no bolso é menor do que o medo. O que importa é planejar a saída do MEI 2-3 meses antes de cruzar o teto, não depois.

Pra mim, o ano em que fiz a transição correta foi o ano em que comecei a tratar o negócio como negócio, não como bico. Contador profissional, conta PJ separada, pró-labore mensal documentado. Coisas que parecem burocráticas, mas que liberam a cabeça pra focar em entregar projeto bom.

Se você passa de R$ 5 mil/mês de faturamento estável, MEI é um teto invisível esperando você bater. Quanto antes encarar, menor a dor.

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